
O local usual de encontro, antes de rumar a Faculdade, era o café “Reduto”, na avenida Fernão de Magalhães. Quando aí cheguei, as perguntas eram as mesmas. E se for um golpe dos “ultras” contra o Marcelo? Será da esquerda militar? “O golpe das Caldas” ainda não estava bem explicado e o livro do General António de Spínola, “ Portugal e o Futuro”, era lido às escondidas e passado de mão em mão, porque a PIDE/DGS tinha-os comprado quase todos! Nunca se sabia quem nos estava a ouvir ou ver. O medo da PIDE/DGS era muito!
No “Largo das Mamudas”, entre “as Letras”, “os Direitos” e a Biblioteca Geral, os estudantes começavam a juntar-se e a comentar, sem ninguém avançar com o que quer que fosse. Todos queríamos que fossem os militares de esquerda e os “milicianos” os heróis desta iniciativa, mas … e se não fossem? A angústia, a incerteza, o querer gritar “liberdade”, mas o medo de ser imediatamente detido, detinha-nos … os minutos passavam e as notícias eram vagas. Que se passaria efectivamente em Lisboa? O Governo? Como estava a reagir? A PIDE/DGS estava quieta? A Legião Portuguesa estava já em acção? A GNR? Tudo isto era falado, comentado em voz baixa, mas, por volta das 11:00 horas, um comunicado do MFA faz toda a gente gritar de alegria e os primeiros choros de alegria, os primeiros abraços e gritos se soltam. Alguém já oferece flores a professores que sempre estiveram ao lado da luta dos estudantes. Finalmente! Marcelo Caetano estava cercado, soubemos, no Quartel do Carmo em Lisboa! Forças até agora afectas ao Governo tinham-se passado para o lado dos revoltosos. A fragata “Gago Coutinho”, fundeada no Tejo, tinha-se recusado abrir fogo sobre os revoltosos estacionados no Terreiro do Paço. Mas havia muitas incertezas, ainda! Otelo Saraiva de Carvalho, o cérebro do golpe, estava com dificuldades em fazer crer tratar-se de um golpe a sério. Não era a repetição das “Caldas”! “ Rebenta com as fechaduras do portão, que é para saberem que é a sério!”, comunicou ele ao Salgueiro Maia que não conseguia a rendição no “Carmo”! A população estava a ficar eufórica! Era Primavera! O dia estava radioso! As floristas que carregavam flores para a cidade, começaram a distribuir cravos aos soldados, que sem saber o que fazer com eles, algum se lembrou, e vai de enfeitar o cano da G3 com um cravo! Quem o fez, nunca pensou que essa flor e essa imagem viessem a ter o significado que tiveram!
O dia ia longo e a tarde caminhava para a noite! Eram 18:00 horas e Marcelo Caetano entrega o poder e a rendição do Estado Novo ao General Spínola, que se recusara ser Ministro do Ultramar.
Às 19:50 um novo comunicado do MFA informa a população portuguesa da queda do governo e à 1:30 do dia 26 de Abril um grupo de sete militares, todos com ar de quem o sono os esperava já hà horas, apresentavam-se na televisão, aos portugueses, como a Junta de Salvação Nacional, que tinha como grande missão cumprir o programa do MFA: “Considerando que, ao fim de treze anos de luta em terras do ultramar, o sistema político vigente não conseguiu definir, concreta e objectivamente, uma política ultramarina que conduza à paz entre os Portugueses de todas as raças e credos; Considerando que a definição daquela política só é possivel com o saneamento da actual política interna e das suas instituições, tornando-as, pela via democrática, indiscutidas representantes do Povo Português; Considerando, ainda, que a substituição do sistema político vigente terá de processar-se sem conclusões internas que afectem a paz, o progresso e o bem-estar da Nação: O Movimento das Forças Armadas Portuguesas, na profunda convicção de que interpreta as aspirações e interesses da esmagadora maioria do Povo Português e de que a sua acção se justifica plenamente em nome da salvação da Pátria, fazendo uso da força que lhe é conferida pela Nação através dos seus soldados, proclama e compromete-se a garantir a adopção de medidas ( … ), que entende serem necessárias para a resolução da grande crise nacional que Portugal atravessa.”
Assim, Portugal chegou à Democracia, à Liberdade, iniciando um novo ciclo, uma nova república, permitindo que outros povos, noutros quadrantes, também eles, chegassem à Liberdade de serem eles próprios senhores do seu destino.
(Testemunho de Jorge Pereira, professor de História da EPM-CELP)
O Grupo Disciplinar de História
1 comentário:
25 de Abril sempre...
Enviar um comentário